Perceber, melhorar, sobreviver

O que você vê, o que sente é sempre diferente das sensações de outro. A percepção da realidade está diretamente ligada ao número de informações a que cada um tem acesso e ao meio em que vive. Se assim não fosse não haveria guerras, discórdias ou simples discussões de bar.

Autores dizem que existem cinco tipos de percepções da realidade: a vulgar, que é caracterizada pelo “achismo”; a pessoal que é conveniente com os conhecimentos e interesses instantâneos; a religiosa, que simplesmente acredita; a filosófica, que segue uma linha de pensamento e a percepção científica, que é a mais elaborada mas não é perfeita. Estas duas últimas foram as responsáveis, no passado, pelo grande salto no desenvolvimento como com Arquimedes (250 a.C.), que notou as variáveis volumétricas das massas, Galileu Galilei (séc XVI), que construiu os protótipos do telescópio e do microscópio de hoje e os primórdios do eletrocardiograma ao associar um relógio à sua pulsação ou Isaac Newton com as leis da óptica e da gravidade.

Nos últimos cinqüenta anos o homem saltou, literalmente, para o espaço sideral, desenvolveu a mais útil matéria de sua história, o plástico, que possibilitou a criação de micro-chips e computadores, assim como garrafas, lentes de contato, copos descartáveis, corações artificiais, tudo praticamente indestrutível, e lixo. Muito lixo. A capacidade humana de estudar, entender, criar e modificar parece infinita, mas a realidade não é bem assim. A ciência muitas vezes encontra obstáculos que atravessam décadas à espera de melhores soluções. Em 1929 foi lançado o primeiro carro produzido em série, o romântico “Ford Bigode”. O limpador de pára-brisas nele instalado é praticamente igual ao instalado no mais sofisticado veículo de transporte atual, o ônibus espacial da NASA. Este veículo, por sua vez, necessita de aproximadamente vinte e cinco vezes o seu peso em combustível para colocá-lo em órbita. Por essa análise, este quase nos parece um objeto antiquado ou até um “trambolho”.

A ciência e a tecnologia desenvolveram-se de forma global proporcionalmente ao investimento econômico e, principalmente, às necessidades locais. Mas apesar de extremamente útil, a tecnologia de captação de água das geleiras para os finlandeses, é completamente inútil para os quenianos, por exemplo.

Outro exemplo é mostrado por um estudo realizado pela Universidade de Cambridge que analisou 5 diferentes áreas exploradas para uso e produção e completamente transformadas pelo homem (uma floresta na Malásia, convertida para exploração de madeira intensiva; uma floresta em Camarões, convertida para agricultura familiar e comercial; um manguezal na Tailândia destruído para o cultivo de camarões; um brejo no Canadá, cuja água foi drenada para a agricultura e um recife de coral nas Filipinas, dinamitado para a pesca) e valorou as vantagens humanas em relação aos alimentos, aos serviços, à facilidade de vida e os produtos gerados e, por outro lado, calcularam o que a população (local e mundial) perdeu e perde em qualidade dos solos, controle de erosão, reciclagem de nutrientes e fontes de água potável, regulação do clima, seqüestro de carbono, polinização, controle biológico de espécies-praga, biodiversidade (tanto para caça como para pesquisa de moléculas medicinais) e até opções de turismo e recreação e o prejuízo calculado chega a $ 250 bilhões de dólares por ano, como isso acontece há 10 anos, totaliza-se aproximadamente $ 2,5 trilhões de dólares em prejuízos para o planeta.

A importação de tecnologia é algo superestimado pelas comunidades das nações em desenvolvimento. No Brasil já aprendemos que as tecnologias tupiniquins do álcool combustível e da captação de petróleo em mar aberto são as melhores do mundo. Será que se faz necessário construirmos usinas nucleares tendo as capacidades hídricas, eólicas e solares quase inesgotáveis, limpas e baratas? Para quê soluções estrangeiras para a Mata Atlântica (que só existe no Brasil) e que é diferente da Floresta Amazônica, ou do Cerrado que só existem aqui? Não há como se pesquisar esses biomas e criar tecnologias adequadas à sua exploração e conservação não estando dentro deles. Os conhecimentos empíricos das comunidades centenárias desses locais são muito pouco valorizados e divulgados. Cada cultura e cada gradiente de necessidades são singulares e nada mais propício que o dono, que conhece a casa, cuidar da casa.

É fundamental considerar que toda “verdade científica” é incompleta e provisória. A evolução tecnológica nos mostra que grandes descobertas estão sendo redescobertas e que teorias estão sempre à mercê de serem contrariadas, visto Galileu, o geocentrismo e a Santa Inquisição. É fundamental primar que a ciência e a tecnologia propiciem bem-estar, melhoria da qualidade de vida e desenvolvimento nacional. Sem qualquer tipo de exclusão ou pré-conceito.
 
Iúri Gebara
 
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