A ESCOLA E OS SENTIMENTOS

Kelen Cristina Viviani
Monitora do Projeto Jovem Cidadão Amigo da Natureza
Escola: EMEFI Stela Bôer Maioli
Graduada em Ciências Biológicas pela FAI (Faculdades Adamantinenses Integradas)

A frieza das relações humanas nas escolas é algo preocupante há tempos.
As relações entre alunos e professores parecem desgastadas e dolorosas, apesar do aumento nas tentativas de melhorias na educação que têm ocorrido nos últimos anos.
A mais recente tentativa foi proposta pelo governo federal através do Plano de Desenvolvimento da Educação, lançado no dia 23 de abril de 2007, onde se pretende apoiar os municípios de baixos índices educacionais, entre outras ações que demonstram a preocupação existente com o futuro da educação no Brasil.
Pensa-se muito em maneiras adequadas de alfabetizar, em conteúdo, nos índices de qualidade - o que é elogiável, pois seria inaceitável em pleno século XXI a educação estagnada no tempo, ou utilizando métodos de anos atrás para atingir uma clientela atual. Mas o fato é que pouco se tem falado nas escolas sobre “relações humanas” entre professores, alunos e mesmo entre funcionários que lidam com as crianças, por não haver discussões sobre isso, nem busca de soluções, é que existem frustrações e rebeldia que se estendem da sociedade para a comunidade escolar.
Quando se penetra na realidade de uma escola, percebe-se a busca constante pelo cumprimento de prazos, o que faz com que o tempo se torne o pior inimigo do professor e, em alguns casos, compromete o bom rendimento da educação, com exigências sobre o cumprimento de atividades comemorativas, feriados, muito conteúdo programático e o número de alunos que gera uma carga de trabalho tão grande quanto preocupante, uma vez que o estresse leva alguns educadores a perder a alegria e ficar esgotados. No entanto essa situação se reflete também na relação com os alunos, entre si mesmos e talvez até com a comunidade. Um resultado negativo que pode ocorrer dessa situação é o surgimento de professores desmotivados e com pouca paciência para lidar com as crianças. Como contrapartida, temos alunos rebeldes, que tratam muito mal as pessoas, mostrando-se briguentos e desrespeitosos com aqueles que estão à sua volta.
Apesar de ser uma situação preocupante, pouco se tem feito para solucionar esse problema. Trata-se de uma situação real que precisa de ações e intervenções rápidas. Talvez se agíssemos mais com o coração nas relações de trabalho, tratando as pessoas, e no caso das escolas a comunidade escolar, da maneira como queremos ser tratados, o problema seria minimizado.
De acordo com Chalita (2003):

O ser humano é social, não vive sem o outro e, sem o outro, não consegue ser feliz. Nesse instigante espectro, podemos reconhecer a grandeza divina - somos mais de cinco bilhões de pessoas, e somos únicos. Não há duas pessoas iguais. Sonhos, medos, alegrias, desesperanças... Vida. Nesse mosaico fascinante é que se percebe a importância e a grandeza da arte de educar.

Assim, para ele, a educação vai muito além do “ensinar” e da “transmissão de conhecimentos”. Para ele, educar é:

(...) um ato de cumplicidade, de troca, de amor. Educar é ato de vida, o caminho e o encontro da felicidade. Educar é arquitetar e construir o futuro, é o abnegado ofício de plantar e colher. (...) podemos afirmar que a educação é um ato de coragem e afeto. Coragem, porque não será a máquina ou o computador que substituirão o maestro da orquestra, o regente do processo de saber, a essência da educação: o professor. Nesse contexto, a educação torna-se ainda mais importante. Afeto, porque educar é um ato de amor ao próximo e a si mesmo. Quem educa não apenas ensina como, permanentemente, aprende. Crescem ambos os que estão envolvidos nesse diálogo, o mestre e o aprendiz. Porque se confunde na mesma pessoa, na troca de conhecimento. Na evolução pelo saber. No equilíbrio do amar e ser amado, do dar e receber.

Concordando com Chalita, não é incomum ver como as crianças se apega facilmente a quem lhes dá atenção. Elas precisam ser tocadas, ouvidas e respeitadas, sentir, enfim, que é bem-vinda ao ambiente escolar e, assim, aprender a respeitar e devolver, na mesma medida, toda a atenção aos professores e demais profissionais da comunidade escolar.
Somente assim conseguiremos fazer desses pequenos, pessoas melhores, mais amigas e menos frustradas.
Se quisermos formar uma geração de cidadãos no pleno sentido da palavra, não podemos ignorar que os seres humanos são dotados de sentimentos, que são sensíveis e que precisam ser tratados com carinho para, na idade adulta repetir esse comportamento, criando uma geração menos agressiva e mais tolerante.
Daí percebe-se a necessidade de falar mais sobre o assunto: é preciso uma análise cuidadosa do que fazer, não se pode continuar a ter pessoas insatisfeitas com o que fazem e vivem. O professor não pode continuar tendo medo dos alunos e nem os alunos sentirem desejo de abandonar a escola ou de ‘burlar’ as regras pela insatisfação com o que ocorre no seu interior.
Segundo RUBEM Alves (1983) há uma grande diferença entre o professor (que simplesmente exerce uma função) e o educador (que representa uma pessoa).

Educadores são como as velhas árvores. Possui uma face, um nome, uma “estória” a ser contada. Habitam um mundo em que o que vale é a relação que os liga aos alunos, sendo que cada aluno é uma entidade sui generis, portador de um nome, também de uma estória, sofrendo tristezas e alimentando esperanças. E a educação é algo pra acontecer nesse espaço invisível e denso, que se estabelece a dois. Espaço artesanal. (ALVES, 1983, p.13).

Assim, segundo o autor, encarando o educador e o aluno como indivíduos independentes mas vivendo uma história que, de alguma forma, os liga, seria possível tornar o ambiente educacional um lugar mais ameno, dependendo em muito de os envolvidos terem boa vontade e desejo de mudar.
Creio que podemos, a partir da escola, que é um dos alicerces que formarão a base da personalidade dessas pessoas, resgatar os sentimentos, o amor, o respeito, a amizade, a justiça e o prazer da convivência, gerando indivíduos mais felizes
Esse trabalho tem que ser uma produção coletiva, principalmente de orientação e exemplo. Atitudes de delicadeza, carinho, respeito e elegância fazem toda a diferença. A escola que ensina a ler, escrever e fazer contas, pode ser também a escola para a vida, para o bom relacionamento e a percepção de que estamos todos no mesmo barco e que não estamos sozinhos. Ainda é tempo. Talvez daqui a alguns anos seja tarde demais.
Podemos formar adultos críticos e sábios, mas que também sejam capazes de compreender o mundo que os cerca, de se darem bem com as pessoas à sua volta. Não é preciso muito para isso: apenas ficar atentos às oportunidades que a própria vida oferece, de estender a mão e ser gentil.
É absolutamente compreensível que as metas e prazos a cumprir bem como as atividades burocráticas inerentes à profissão do professor tomem todo seu tempo e paciência, que a situação do aluno muitas vezes o leve a destratar os que estão à sua volta. O que não é compreensível é que não se faça nada para mudar essa realidade, que não haja nem ao menos reflexões sobre o problema; é preciso que as coisas mudem, ou corremos o risco de nos perder no tempo, deixando um legado de repetição de atitudes que, há algum tempo, têm se mostrado ineficientes ao ambiente escolar, por criar uma geração com sentimentos confusos, incapacidade de desenvolver um bom relacionamento humano e de criar um ambiente que não propicia o aprendizado. Certamente, não é isso o que queremos para os nossos descendentes.


BIBLIOGRAFIA

ALVES, Rubem. Histórias de quem gosta de ensinar. São Paulo: Editora, 1983.
ALVES, Rubem. A escola da Ponte. www.escola2000.org.br (Acesso em abril/2007).
CHALITA, Gabriel. Educar é um ato de coragem e afeto. Jornal A tribuna (Santos), 2003. www.educacao.sp.gov.br (acesso em abril/2007).
 
Kelen Cristina Viviani
 
Todos os direitos reservados © Instituto BioMa 2006